Introdução: As doenças cardiovasculares (DCV), em particular a síndrome coronária aguda(SCA), continuam a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em todo o mundo. A resistência à insulina (RI) tem emergido como um fator determinante, embora frequentemente subvalorizado, no risco cardiovascular. O índice triglicerídeos-glicose (TyG) é um marcador simples e validado de RI, com potencial prognóstico para eventos cardiovasculares adversos. No entanto, o seu papel prognóstico na SCA permanece pouco estudado. O nosso objetivo foi avaliar o impacto do índice TyG nos outcomes cardiovasculares de doentes internados por SCA submetidos a intervenção coronária percutânea (ICP), e determinar se a sua combinação com o score GRACE melhora a estratificação de risco e a acuidade prognóstica. Métodos: Estudo observacional, retrospetivo e unicêntrico, incluindo 534 doentes adultos com diagnóstico de SCA entre janeiro de 2019 e dezembro de 2023. Os doentes foram estratificados em grupos de baixo e alto risco segundo o índice TyG (cut-off: 8,80) e o score GRACE (cut-off: 109). Foram recolhidos dados demográficos, clínicos, laboratoriais e angiográficos. O endpoint primário foi a ocorrência de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares adversos maiores (MACCE) aos 12 meses, incluindo enfarte agudo do miocárdio (EAM), AVC, revascularização e morte. Foram realizadas análises de sobrevivência de Kaplan-Meier. Resultados: Os doentes com índice TyG elevado eram significativamente mais jovens e apresentavam maior prevalência de diabetes, dislipidemia, obesidade e doença renal crónica. Apesar de não se observarem diferenças significativas na anatomia coronária ou no tipo de apresentação do SCA, os marcadores metabólicos estavam marcadamente piores no grupo TyG elevado. Isoladamente, o índice TyG não se associou à incidência de MACCE, mas previu significativamente melhor a sobrevivência livre de EAM do que o score GRACE (p=0,046 vs p=0,068). A combinação de ambos permitiu uma estratificação estatisticamente significativa da sobrevivência livre de MACCE e EAM (p<0,0001 e p=0,030, respetivamente). Conclusão: O índice TyG é um marcador acessível e de baixo custo que reflete a carga cardiometabólica e a resistência à insulina. Embora isoladamente não preveja MACCE a curto prazo, melhora a estratificação do risco de EAM, sobretudo quando combinado com o score GRACE. Estes dados sugerem que a integração de marcadores metabólicos como o TyG nos modelos de risco em SCA poderá melhorar a previsão de risco cardiovascular a longo prazo.
Sousa et al. (Tue,) studied this question.