Resumo Este artigo, que se baseia em coleções arquivísticas subutilizadas, bem como em histórias orais, é um dos primeiros exames abrangentes da luta feminista para descriminalizar o aborto durante a transição do Brasil para a democracia nos anos 1980. Discutimos como a consolidação da direita cristã antiaborto e sua proximidade com vários partidos políticos, incluindo alguns à esquerda, juntamente com o tom politicamente moderado da transição da ditadura para a democracia, restringiram o espaço em que as feministas brasileiras poderiam fazer demandas radicais ao Estado. Além disso, sustentamos que, embora a criação do órgão feminista financiado pelo Estado, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em 1985, tenha trazido importante visibilidade para questões feministas e inserido a agenda do movimento diretamente dentro do aparato governamental, também fragmentou as feministas, ameaçou a coopt ação pelo Estado e, em última análise, obrigou os ativistas dos direitos ao aborto a priorizarem a estratégia mais aceitável de expansão do acesso aos abortos terapêuticos, que já eram permitidos por lei. Além das divergências na estratégia política, as feministas lutaram para criar coalizões multirraciais e multiclasses durante esse período, quando muitas feministas negras e mulheres da classe trabalhadora estavam se organizando em torno de outras preocupações. Como resultado, as feministas não conseguiram alterar fundamentalmente a opinião pública sobre a importância política do aborto, e seus esforços para consagrar a interrupção da gravidez como um direito humano na Constituição de 1988 foram malsucedidos.
Weeks et al. (Mon,) estudaram esta questão.