Este artigo analisa a controvérsia digital desencadeada pelo sit-in online #STOP490, lançado em 2021 pelo coletivo Hors-la-loi, que pediu a revogação do artigo 490 do Código Penal marroquino, que pune relações sexuais extraconjugais com prisão. A controvérsia eclodiu após o caso de Hanaa, uma jovem condenada após ser vítima de pornografia de vingança, e que rapidamente se tornou um símbolo da repressão das liberdades individuais. O estudo adota uma abordagem metodológica que combina etnografia da comunicação digital e análise argumentativa, focando na decodificação das principais estratégias argumentativas empregadas pelos dois campos opostos. Os resultados revelam uma divisão clara entre esses dois grupos dentro de um contexto sociopolítico complexo, onde o Islã é a religião do Estado e onde o rei, como Comandante dos Fiéis, desempenha um papel central na legitimação das reformas. De um lado, os reformistas, sob o #STOP490, exigem uma ampliação das liberdades individuais, enfatizando a inadequação do artigo 490 à luz das evoluções sociais e jurídicas contemporâneas, e pedem sua revisão para garantir os princípios de equidade e justiça. Do outro lado, os conservadores, sob o #KEEP490, defendem uma interpretação rigorosa dos textos religiosos, opõem-se firmemente a qualquer reforma em nome da preservação da ordem moral, religiosa e cultural. Assim, essa controvérsia digital vai além das questões jurídicas, levantando questões fundamentais sociais, culturais e identitárias. Ela ressalta as resistências persistentes enfrentadas pelas feministas no Marrocos.
Hassan Atifi (Qui,) estudou esta questão.