Neste artigo, interrogamos a maneira como o romance contemporâneo se apropria das lógicas digitais para renovar suas formas, seus modos de enunciação e suas questões críticas. A partir do technopolar L’ombra e la lumière de Maxime Frantini, examinamos como a ficção incorpora as estruturas de codificação, da vigilância algorítmica e da interface para transformá-las em operadores estéticos e políticos. O hacker, figura central da narrativa, nos aparece como um vetor privilegiado de dissidência: ele embaralha os fluxos, sabota os dispositivos e introduz rupturas que desestabilizam a ordem narrativa tanto quanto a ordem técnica. Nossa abordagem conjuga três dimensões complementares: uma narratologia aumentada atenta às formas fragmentárias e aos dispositivos de enunciação inspirados nas interfaces; uma semiótica dos signos codificados que permite entender como scripts, logs e fragmentos técnicos se tornam elementos estruturantes da ficção; por fim, uma leitura sociocrítica que situa este romance no imaginário contemporâneo do controle e da rastreabilidade. Mostramos que o texto funciona como um espaço de resistência onde o bug, a descontinuidade e a opacidade desempenham um papel poético central. Ao hibridizar os códigos do polar com as lógicas do digital, L’ombra e la lumière propõe uma reconfiguração da narrativa na era dos dados, fazendo da ficção um lugar de atrito, experimentação e vigilância crítica.
Adel Lalaoui (Terça,) estudou essa questão.
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