A produção de software corporativo contemporâneo permanece marcada por um paradoxo estrutural. Embora frameworks, bibliotecas e plataformas tecnológicas tenham evoluído significativamente, grande parte do esforço de engenharia continua associada à **reimplementação recorrente de soluções conceitualmente semelhantes em diferentes stacks e camadas arquiteturais**. Essa situação sugere a existência de uma lacuna entre a formalização da solução e sua materialização tecnológica, dificultando a consolidação de práticas produtivas mais reutilizáveis e governáveis. Este artigo apresenta **Janus**, uma arquitetura conceitual e tecnológica orientada à criação de linguagens especializadas de solução e à projeção sistemática dessas linguagens em tecnologias alvo. O modelo propõe a separação explícita entre três elementos centrais: (i) uma meta-gramática operacional mínima, utilizada para formalizar soluções de maneira relativamente independente de tecnologia, materializada na *Solution Definition Language (SDL)*; (ii) especificações semânticas modulares, denominadas *Layer Specification Contracts (LSC)*, responsáveis por definir vocabulário operacional e estruturas válidas para diferentes domínios ou camadas; e (iii) mecanismos de geração tecnológica, definidos por meio da *DevBot Language (DBL)*, que encapsulam estratégias de materialização em ambientes específicos. A proposta organiza a produção de software como um pipeline disciplinado que envolve modelagem semântica, estabilização intermediária da solução e geração multitecnológica orientada por aspectos. Ao deslocar parte do esforço de implementação para a criação e evolução de ativos reutilizáveis de linguagem e geração, o Janus busca favorecer maior consistência arquitetural, reuso transversal entre projetos e potencial aumento de escala produtiva. O artigo discute os fundamentos conceituais da arquitetura, posiciona a proposta em relação a abordagens como engenharia dirigida por modelos e linguagens específicas de domínio, e analisa suas implicações para a organização da produção de software. O objetivo não é propor substituição de práticas consolidadas, mas oferecer um enquadramento arquitetural para compreender a construção de sistemas como um processo parcialmente industrializável baseado em engenharia de linguagens e projeção tecnológica governada.
Mozar Baptista da Silva (Tue,) studied this question.